07 Dezembro 2011

sei de uma hora




sei de uma hora
em que todos os relógios me fuzilam
e eu caio em tantos segredos
que nem sei
se são meus




23 Outubro 2011

às vezes




às vezes
é preciso regressar às palavras
que abandonámos

e abraçá-las
como filhos perdoados



15 Novembro 2010

e tu, sempre tu

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e tu,
sempre tu
num prodígio de luz

a enlouquecer-me
as sombras
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01 Outubro 2010

ser português




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será na vossa língua
que procuro os meus
caminhos;


mas é a minha linguagem
que determina o
meu destino
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04 Setembro 2010

ainda quero outro tempo



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agora que qualquer tempestade
pode ser a última


ainda quero outro tempo
ainda preciso de
outras profecias
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31 Julho 2010

o nó da tristeza

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de ter esperado tanto
eu risquei, eu rasguei, eu matei luas
nos abismos perversos
dos espelhos

e dancei na poalha
dos cinzéis
até as mãos chorarem sujas
por entre as fendas
dos muros


rasguei-me
na terra e nas árvores
para que da dor que sobrasse
se multiplicassem estátuas de chumbo
de lábios abertos e olhos
gigantes

por onde a escuridão morresse
e deixasse ao uivo dos lobos
a tarefa difícil de murmurar a luz
no coração da terra fria

por entre a água e a pedra
no peito dos pinheiros
por onde rebentavam as manhãs
amenas,

suaves, como eram
as tua mãos no meu rosto
ou a tua voz de abrigo
quando tropeçava naquela linha
onde se esconde o nó
da tristeza
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14 Junho 2010

no grande deserto do amor

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nómadas do
grande deserto do amor

perseguimos o
trilho da grande neblina

a última, a
sumptuosamente alva!


montados na grave palavra
do vento

(essa fidelíssima fera
que nos aguça o sul)

escrevemos no corpo
a balada serena

o rasto mudo do
sangue, do sol morto

dançado golpe a
golpe

por entre os
punhais da saudade
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09 Maio 2010

diz-me





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diz-me um segredo
qualquer coisa inacessível
dessa tua alma


alguma coisa
que eu possa ainda fingir
que não sei
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14 Abril 2010

crónicas imperfeitas / do regresso


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mesmo cansadas as flores regressam. retiram-se e trazem de novo a sua cor, a sua forma, o seu perfume… até que alguém as colha e faça suas.
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19 Março 2010

ler e escrever





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depois
falava a água e o vento

e o céu
luminosamente
escrevia tudo


e nós,
nós líamos na vida
o que o tempo fingia
escrever
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18 Fevereiro 2010

certas lágrimas








há certas lágrimas
que já não cabem nos olhos
e que têm de ser choradas
por outras máquinas de
sentir: árvores,
ou o mar, por exemplo


e isto não são só palavras
isto não é
uma palavra








27 Janeiro 2010

crónicas imperfeitas / a estrada



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é tão difícil sentar-se sozinho. sentar-se ali sozinho. a estrada a encher-lhe o olhar. estendida como uma vida sobre outras vidas. rompendo tempos. abrindo o passado, abrindo o futuro. a estrada nua de um lado, nua do outro. indecisa e implacável. implorando para ser atravessada. parecendo que implora. como se o presente pudesse existir neste lado e naquele lado e não se soubesse que lado escolher. e ele ali sentado. aparentemente sozinho. mas é tão difícil escapar dos mortos. dos seus mortos, de todos os mortos. porque ninguém lhes pode pedir o silêncio. não se pode pedir aos mortos que se calem, que não sejam mais, ainda que no momento dessa súplica nos ocupemos da nossa própria morte. ainda que estejamos a escrever o guião do nosso próprio passamento.

e ele sabe que nunca se poderá sentar ali sozinho. em nenhum lugar, em nenhuma dimensão se poderá sentar sozinho. porque no perímetro de quem respira… porque o leito por onde corre a respiração de alguém, é que é o chão mais profundo de um ser. é o lugar indizível do seu próprio divino. um espaço que só a água do sonho consegue ocupar. fundo, muito fundo, tão fundo como a eternidade. e é aí que evoluem todos os seres do seu ser, desamarrados do tempo, soltos, demorados como demora o rasto do último beijo no coração de quem ainda perde o que um dia a estrada levou.
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12 Janeiro 2010

esse tempo de incêndios








o verão
era uma traição à melancolia

ainda que a luz
trabalhasse no olhar

o cantar das correntes
e a saudade leve dos navios


levava-te sempre no bolso
ruas brancas

e uma mão
de sombras roubadas

era a minha dádiva
nesse tempo de incêndios








23 Dezembro 2009

c alma








vi cair a cal
nas paredes
cegas


pouco antes
do relógio dos incêndios
atear a tua hora









18 Dezembro 2009

dos regressos








talvez ainda fosse capaz
de cantar
as geografias do sangue

e de construir os céus
onde apodrecem
os dilúvios

talvez fosse capaz

se as suas mãos não tivessem secado
no chão das navalhas

se os abismos do tempo
não tivessem lançado uma sombra
de loucura

sobre a redonda luz de beleza
que rasga o coração das muralhas
da morte


e nos aponta a brecha singular
que permite todos
os regressos








21 Novembro 2009

instantes solares








manhãs inteiras
atados com cordas de luz

ao soneto solar
que inundava as pedras

os anjos à espera
de soltarem a voz

asas pacientes
tecendo nuvem a nuvem

castelos de céu
para onde, perfeita,

se ia amurar
a solidão







11 Novembro 2009

os pianos orfãos







um bando de pianos órfãos
atravessava a neve

e deixava um rasto de ouro
no silêncio negro da tarde

velávamos os raros fios de sol
que nos teciam a melancolia

e partíamos ricos
dando-nos ao assalto das horas

livres e amantes